Talita, você se vira bem com espanhol?? Essa foi a primeira pergunta que meu chefe me fez ao saber que o contrato de amostragem havia sido fechado!! Eu, sem ao menos saber o que me esperava respondi: nunca tive contato com a língua, mas devo me virar bem com o portunhol!!
E assim começava minha saga rumo ao México. O trabalho estava sendo cogitado fazia um tempão e antes de se decidir que eu iria fazer o trabalho de amostragem (coletar pedaços de rocha na superfície), meu chefe esteve por lá viajando por diversas cidades e procurando locais onde ocorressem depósitos de argila e calcário para quem sabe, futuramente, servirem de alvos a pesquisa.
A cidade escolhida, não só por já existir infra-estrutura local da empresa contratante, mas também por ter ótimas exposições de calcário, foi Tuxtla Gutiérrez, capital do Estado de Chipas, a sul da Península de Yucatán, e muito, mas muito longe do mar.
O trabalho em si era corriqueiro, tinha que fazer amostragem em frente de lavra e verificar nas proximidades a possível ocorrência de argilas. Com isso, todas as instruções foram passadas e, como meu chefe estava mais ansioso do que eu, me passou várias recomendações: cuidado com isso, cuidado com aquilo, você não estará no Brasil, etc., mais parecia a minha mãe quando eu fui fazer a primeira viagem de campo da faculdade.
Recomendações dadas, mala arrumada, visto concedido, lá fui eu embarcar para a Cidade do México. O voo é bem longo, dura umas 9 horas, e eu como boa marinheira de primeira viagem, passei meu primeiro aperto na hora do jantar. ? Pasta ou Pollo? Na hora que me perguntaram, nem entendi direito o que era cada coisa, pedi o primeiro e por sorte, o raviolli estava delicioso!!
Mais algumas saias justas na fila da imigração, no embarque doméstico e finalmente desembarco no aeroporto de Tuxtla Gutierrez, onde o engenheiro local me esperava. A hora local era aproximadamente 13 horas, mas o meu horário biológico já estava passando das 16 e eu estava apenas com o café da manhã servido no avião. O dia estava praticamente perdido e só me restava almoçar com o meu acompanhante experimentar a famosa comida mexicana. Nesse momento descobri que “salsa” nada mais é do que molho de pimenta forte e que eu ia ter que me acostumar!!
Os primeiros dias foram um tanto quanto difíceis, principalmente pelo fato de ter lidar com trabalhadores locais e que raramente entendiam o que eu falava e, secundariamente, pela grande discrepância de horários: 1) meu café da manhã era antes de começar a trabalhar, o deles é bem no meio da manhã; 2) meu horário de almoço é das 12 às 13 horas, o deles é indeterminado a partir das 15 horas.
Foi um pouco complicado chegar a um consenso geral, mas depois de algumas horas paradas embaixo do sol, alguns lanches apimentados na hora do almoço, não teve mistério, grandes paredões de calcário, onde eu deveria orientar os ajudantes a coletar pequenos fragmentos de rocha ao longo de uma canaleta de no máximo 5 metros de altura e, sol, muito sol na cabeça!!
Os calcários do México são bastante conhecidos, principalmente porque serviram de matéria prima para a 3º maior produtora de cimento do mundo: Cemex.
O cimento é um pó fino com propriedades aglomerantes, aglutinantes ou ligantes, que endurece sob a ação da água. Este pó é composto por calcário e argila, que após vários processos ponderados de mistura, queima e homogeneização gera a principal matéria prima do cimento, denominado clínquer. Esse clínquer, misturado com alguns outros componentes (pozolana, gesso, escória) é o que forma o cimento que chega até os consumidores, cimento esse que é o segundo material mais consumido do mundo, perdendo apenas para a água.
Geologicamente falando, o depósito carbonático nesta região encontra-se sob o domínio de calcários do Cretáceo Superior relativos à Formação Ocozocouatla - Angostura que ocupa o núcleo da Sinclinal de Ocozocouatla.
A formação das rochas carbonáticas está associada a ambientes marinho raso, de águas quentes, calmas e transparentes, onde ocorre a precipitação do carbonato de cálcio, que tem origem variada, desde fósseis de carapaças e esqueletos calcários de organismos vivos, que compõem os calcários fossilíferos, até por precipitação química. O calcário que fui procurar tinha que ser propício à fabricação de cimento, e para tanto, deveria apresentar teores de CaO > 51%, mas isso eu só iria saber após as análises químicas. Adiantando um pouco os fatos, os calcários amostrados apresentaram teores muito acima do desejado (~54% CaO).
Depois de 8 dias de trabalho corrido, sem ao menos ter tempo para passear um pouquinho, partir para a segunda etapa do trabalho, que era prospectar nas redondezas algum depósito de argila. A argila também é outro componente bastante importante à fabricação do cimento, sem ele não é possível fabricar o clínquer e sem isso não podemos fabricar o cimento.



































